quinta-feira, 10 de março de 2011

A ESPIRAL DO SILÊNCIO.

Quem abriu algum jornal nos últimos meses, certamente se deparou com a seguinte manchete: “Caso Bruno”. Da mesma maneira, quem acompanhou os noticiários do país nos últimos anos, com certeza leu outras manchetes semelhantes: “Caso Richthofen”, “Caso Isabella”, Caso João Hélio”, “Caso Madeleine McCann”, “Caso Daniela Perez”, etc. O que isso demonstra, é o fato de que de tempo em tempo sempre aparece algum crime que pela divulgação maciça da imprensa acaba gerando uma enorme comoção popular, de modo que todas as atenções são voltadas para as repercussões desse crime em incontáveis desdobramentos jornalísticos. O que cabe comentar não é a natureza dos crimes, mas a razão de tantas pessoas se sentirem comovidas por esses casos ao ponto de vibrarem com a condenação dos acusados, como aconteceu quando da leitura da sentença do Casal Nardoni.

Ao que parece, não é o crime em si que gera tamanho clamor, mas sua excessiva divulgação pela imprensa, a qual, de uma ou de outra forma, produz uma visão excessivamente unilateral dos acontecimentos. Essa unilateralidade, porém, aparenta uma certa imparcialidade que não condiz com o próprio vício da imagem que existe nos meios televisivos, por exemplo. Não existe a menor dúvida de que o destino do Casal Nardoni poderia ser completamente diferente não fosse a atenção que o assassinato de Isabella Nardoni recebeu da imprensa. De forma idêntica, a discussão acerca da possibilidade de redução da maioridade penal não teria tamanha força nos últimos anos não fosse a cobertura intensa do assassinato do menino João Hélio no Rio de Janeiro ou o caso de estupro e assassinato de Liana Friedenbach em São Paulo.

Esse jornalismo preocupado com a divulgação desses crimes em todos os seus pormenores, aponta uma tendência da sociedade contemporânea relacionada com a “eleição” de determinados sujeitos que servem como uma espécie de expiação para as pessoas extravasarem uma indignação contida que em outros casos jamais chegaria a acontecer. Somando isso ao trato que certos apresentadores de televisão dão aos crimes, marcado por um pedantismo quase religioso que geralmente liga o crime com a ausência de fé em Deus ou com a ineficácia do Estado, forma-se um pano de fundo extremamente propício à profusão de opiniões que muito dificilmente irão se diferenciar daquela presente em grande parte da população, o que ocorre justamente pela atenção que a imprensa dá a esses casos.

Isso tudo lembra a Teoria da Espiral do Silêncio, de autoria da pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann. Segundo Noelle-Neumann, os indivíduos buscam a integração social através da observação da opinião dos outros, procurando se expressar dentro dos parâmetros defendidos pela maioria com a intenção de evitar o isolamento. Nesse sentido, as pessoas tendem a esconder opiniões contrárias à ideologia majoritária, dificultando assim a mudança de hábitos com a finalidade da manutenção do seu status social. Essa opção pelo silêncio ocorre pelo medo da solidão social, onde as pessoas, influenciadas pelo que os outros dizem ou pelo que poderiam dizer, optam pelo silêncio quando suas opiniões correm o risco de não ter receptividade na sociedade. Dessa maneira, mudanças sociais somente ocorreriam quando houvesse um sentimento já dominante, o que passa invariavelmente pela imprensa.

O resultado desse processo é uma espiral silenciosa que incita as pessoas a perceber as mudanças da opinião pública e a seguí-las até que uma determinada opinião se estabeleça como atitude dominante, fazendo com que outras opiniões sejam rejeitadas ou evitadas pela maioria. Conforme Noelle-Neumann, a Espiral do Silêncio trabalha com três mecanismos que condicionam seu funcionamento: acumulação, devido ao excesso de exposição pela mídia de determinado assunto, consonância, relacionada à forma como as notícias são produzidas e veiculadas, e ubiqüidade, a qual está para a presença da mídia em todos os lugares. Juntos, esses mecanismos determinam a forte influência da imprensa sobre o público e seu papel determinante na formulação da percepção da realidade nesse público.

Elisabeth Noelle-Neumann chegou a essa teoria ao analisar uma mudança súbita nas pesquisas de opinião nas eleições alemãs entre 1965 e 1972, identificando o fato de que os eleitores procuravam ajustar suas opiniões de acordo com a opinião dominante, direcionando seu voto ao candidato que se apresentava como vencedor. As opiniões contrárias à maioria tendiam a recair em uma espiral silenciosa, o que, para a pesquisadora, ocorreria em razão do medo do isolamento social que uma opinião contrária ao padrão dominante difundiria em grande parte da população. O resultado disso, por meio da acumulação, da consonância e da ubiqüidade, dispôs o “clima de opinião” e o próprio resultado das eleições alemãs da época.

Diante desse cenário, é impossível não relacionar o modo como certos fatos são relatados pela imprensa com a opinião dominante que a população tem sobre eles. Não se discute a culpabilidade ou não dos sujeitos envolvidos em determinados crimes, mas a maneira aparentemente imparcial através da qual esses crimes são tratados. O bombardeio constante e repetitivo de imagens e textos, certamente provoca o surgimento de um senso comum pouco reflexivo revestido com ares de revolta branda, promovendo uma “eleição” de acontecimentos que merecem pouca ou demasiada atenção por parte da imprensa. Pouco importa se o Bruno, por exemplo, é culpado ou não. O que importa é que falar sobre isso vende – e muito.

5 comentários:

  1. Professor,

    É frustrante ler esse teu espaço. Frustrante pois quando eu penso num tema pra escrever, encontro aqui textos sobre temas interessantes em uma qualidade superior. Repito o "parabéns", pela milésima vez.

    Sobre o texto: realmente, o jornalismo virou um circo de horrores e exerce uma influência negativa nas decisões judiciais. Colocar a pressão do povo em julgamentos só atrapalha os envolvidos diretamente no caso.

    O pior é ligar a televisão e não ver um miserável pingo de informação construtiva (além das breaking news do mundo afora). E os documentários? E os problemas do país e do mundo?
    São temas que, quando são abordados, são analisados muy superficialmente.

    Vou limitar meu comentário que o meu tempo é curto.

    Um abraço,
    Julian

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  2. Não é só com crimes. É com as mortes em geral. Normalmente são classificadas de duas formas:
    1- "A desgraça" é um evento com o qual a população, principalmente a classe média, lida muito bem. Pobres morrem o tempo todo, das mais variadas formas. Isso é normal. Está tudo bem, desde que não seja durante o expediente ou na véspera da faxina. Mas atenção: a Classe Média tem coração. Quem quiser praticar um pouco de médio-classismo durante a cobertura televisiva de uma desgraça, deve separar meio minuto do seu dia para sentir pena. Depois, é só voltar ao que estava fazendo.

    2- Já "A tragédia que abalou a família brasileira", por sua vez, é algo capaz de indignar profundamente a alma dos classistas. Consiste na morte de um rico (ou mesmo um médio-classista respeitado em seu meio) em circunstâncias em que normalmente só morreriam pobres. E não interessa se o morto era conhecido ou não. A Classe tem o sentimento de bando, e uma baixa dessa natureza costuma deflagrar um luto, mesmo que contido, em pessoas que nem sabem o nome completo da vítima. Mas quando o falecido é alguém muito mais rico (porque Classe Média não é rico), o sentimento é mais forte, afinal, qualquer pessoa que seja mais rica que um médio-classista, é considerada por este como um semi-ídolo.
    Sei que fugi um pouco do assunto. talvez não tenha fugido, só ampliado...=)

    Abraços!

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  3. Eduardo,
    Só tenho a dizer uma coisinha: "Turba do pega e lincha" - Contardo Calligaris. Leia!

    Abraço

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  4. É a banalização do crime e da vida, caro Eduardo. Na falta ou no hiato de tantas informações, algumas delas cansativas e repetitivas, a que melhor prender a atenção dos espectadores, servirá para os devidos fins da mídia.

    Não há nenhuma novidade no "front". A não ser os últimos acontecimentos no Japão, culminados com as terríveis imagens do "tsunami" invadindo áreas urbanas e rurais próximas ao litoral, e do epicentro do terremoto.

    A violência humana sempre desperta horror, indignação e senso comum de justiça, pelas próprias mãos ou não, pré-julgamentos epré-linchamentos, especialmente verbais. Contudo, devido a essa "espiral do silêncio", alguns se mantém distantes, outros, sem ter muito o que fazer, juntam-se como em uma bandeira que incorporam para determinado ideal ou "slogan", "in casu", o de justiça, para que o(s) indigitado(s) pague pelo que fez. Abraçam causas que não lhes pertencem, diretamente, mas inconscientemente, a fim de que sejam parte dessa anonimato, que nos relega a a sociedade atual, e um momento de igualdade e de libertação, de angústias e frustrações.

    Todos, qualquer um, em algum instante, tem opiniões colidentes e convergentes, sobre determiando assunto, especialmente quando a mídia elege determiando assunto e execra determinado incauto, um criminoso, um enjeitado social, e passa a direcionar e a manipular todos no sentido comum de perseguir e punir, mesmo que indiretamente, prefigurando um julgamento de favas contadas. É justamente esse bombardeamento de imagens, repetitivas, que geram essa atmosfera ainda mais sombria, sem podermos fazer nada, e contemplar o espetáculo televisivo.

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