segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

UM OUTRO SOL.

Não são necessárias muitas coisas para se viver bem. Precisamos de alimentação, de abrigo contra o frio, de teto nos dias de chuva e de algumas pessoas para amar. Não necessitamos de quinquilharias eletrônicas empilhadas em nossas casas e muito menos de uma conta recheada com valores exorbitantes. Claro que saúde, educação e trabalho dignamente remunerado também são essenciais. Mas qual é o motivo de nos preocuparmos com tantas coisas fúteis para nossa vida se ela pode acabar de uma hora para outra? A noção clara da finitude anula boa parte das aspirações de grande parte das pessoas. Mas o modo como a sociedade se estrutura coibi a sensação da proximidade da morte em prol de um presente eterno sustentado atualmente principalmente pelo consumo.

Na Antiguidade, a morte era algo muito mais presente na vida das pessoas. Os longos rituais fúnebres e a importância da morte para a família antiga são provas disso. Nas sociedades remotas, os entes familiares, quando faleciam, deveriam ser obrigatoriamente cultuados pelos seus descendentes. Tanto é que algumas sociedades arcaicas detinham túmulos coletivos no interior das casas, já que se acreditava que a vida não acabava com a morte, mas continuava no além-túmulo. Para nossos ancestrais, essa vida que permanecia após a morte não se relacionava com a desvinculação da alma do corpo. De outra forma, havia a crença de que corpo e alma não consistiam uma dualidade, mas sim uma unidade. Os mortos permaneciam vivos em um outro mundo debaixo da terra.

Hoje pensar desse modo parece absurdo. A civilização judaico-cristã ocidental está embasada na metempsicose, conceito que diz da separação da alma em relação ao corpo. Frequentemente se afirma que o corpo é uma embalagem que carrega a alma. Fala-se que a carne, imperfeita por essência, é a morada de algo sublime que quando da morte irá se desprender desse abrigo e alçar ao Paraíso ou ao Inferno, tudo dependendo do comportamento do indivíduo quando em vida. Se refletirmos acerca da forma como a maioria das religiões se organiza, veremos que essa dualidade corpo/alma alicerça grande parte das crenças existentes. Independentemente da fé em uma felicidade eterna ou em um martírio infinito, acreditando-se na reencarnação ou na jornada terrena como uma busca pela iluminação da alma, vê-se que não mais persiste na cultura atual a antiga crença da unidade corpo/alma, sendo que o corpo quase sempre é visto como uma imperfeição que carrega a perfeição do espírito.

Ocorre que talvez essa crença na dualidade corpo/alma iniba muitas possibilidades que temos quando vivos. Não é segredo para ninguém que a castração simbólica efetuada por algumas religiões quanto ao impulso sexual das pessoas, deixa marcas indeléveis em seu corpo, por exemplo. Igualmente não é segredo que muitos daqueles que passam a vida temendo os castigos divinos dentro de templos e igrejas, são completamente mesquinhos e egoístas em sua vida social, perseverantes unicamente em sua própria imagem. Mas o problema não é esse. O problema é que quanto mais encobrimos a possibilidade da morte, seja com crenças, compras, rancores ou objetivos profissionais, mais sonegamos a grandiosidade e a beleza da vida que pulsa em nosso corpo enquanto estamos vivos.

Se houvesse a aceitação irrestrita do nosso fim, quem sabe poderíamos enfim agir com respeito uns em relação aos outros. Quem sabe esqueceríamos ninharias e tantos desejos infundados que nos movem como sonâmbulos pelo planeta. Se aceitássemos a fragilidade e a precariedade do momento em que estamos vivos, sem um vislumbre do além, seja ele embaixo da terra, como nas crenças antigas, ou no Paraíso e na Ressurreição, como na concepção cristã, talvez realmente vivêssemos cada instante da existência instigados pelo amor, pela solidariedade e pela convivência harmônica uns com os outros. Se tanto as religiões quanto o consumismo procuram furtar nossa visão da possibilidade de um final irreversível, uma pela crença no além, outro pelo esquecimento da morte, a aceitação do caráter último desse fim poderia injetar em nossas veias um senso completamente diverso do mundo, das pessoas e de nós próprios, dando para a existência não apenas um senso negativo, mas sim um espectro positivo do privilégio que é simplesmente estarmos vivos em um universo tão grandioso como o que habitamos.

Mas essa ética da fatalidade e da irreversibilidade da vida está longe de ser mais que um horizonte. O fato é que as pessoas permanecem apegadas às coisas pequenas justamente para esquecer da possibilidade da morte. Preferimos varrer para o canto mais escuro da nossa consciência a certeza do fim, como quem nega a realidade em um discurso alucinógeno e constrói sua vida a partir de um redemoinho de ilusões. O apego irrestrito à vida é confundido com preguiça para as coisas do mundo, visto como desinteresse pelas convenções tidas como normais e tachado como loucura por aqueles que contam suas horas de vida no ponto de tantas empresas. Esquecemos de abraçar e beijar aqueles que amamos, não lembramos que de algum modo somos seres de uma mesma e antiqüíssima família e passamos pela vida sem dar por conta da beleza que nos espreitou por toda parte.

Com certeza que pensar na mortalidade não é algo agradável. Refletir acerca da possibilidade e da certeza do fim, invariavelmente causa angústia a qualquer pessoa. Quando choramos em tantos velórios no decorrer da vida, choramos pela nossa condição finita além de derramarmos lágrimas por aqueles que amávamos e faleceram. Como diz Gabriel Garcia Marques, o luto é uma raiva cega e sem direção. Porém, a fatalidade da existência não precisa apenas carregar a absurdidade da sua notável falta de sentido, mas pode também trazer a possibilidade de um novo sentido fincado na vida e nada mais. Esse amor pela existência poderia nos libertar de amarras que mais nos atormentam do que nos consolam, fazendo com que o corpo, antes de ser uma embalagem, uma imperfeição que carrega algo eterno, seja a única e verdadeira perfeição que de modo aleatório e desprovido de um planejador, de um arquiteto, deu-nos a possibilidade de trazermos na pele a poeira do cosmo para o qual invariavelmente regressaremos após a morte – mas não como espíritos: apenas como átomos que um dia se transformarão em outros corpos (e talvez em farelo mínimo de um outro sol que iluminará outras vidas).

Mas também é possível que efetivamente nossa vida continue após a morte. Talvez em uma outra dimensão paralela a esta em que vivemos e a qual não conseguimos perceber por mera limitação da consciência, continuemos observando esta vida a partir de uma outra vida da qual não temos a mínima noção. O mistério da existência não se encerra com a certeza do nosso fim. Mas a certeza do nosso fim encerra todo o mistério da existência. Não se trata de crueldade. Trata-se de fatalidade, de irreversibilidade e de inevitável limitação. Quem sabe Deus seja a beleza da incompreensão.

3 comentários:

  1. Parabéns por outro belo texto, Eduardo.

    Tuas palavras lembram as linhas de um mestre romano. Falo de Lúcio Aneu Sêneca. Alguém que sempre alertava os outros sobre a brevidade da vida. Condenava, também, o mal uso do tempo. As palavras desse antigo mestre ainda vivem em nossa época, denunciando que ainda carregamos males antigos.

    Lembro, também, do Anticristo de Nietzsche. Com muita razão ele observou que a renúncia deste mundo por outro leva a uma desvalorização deste. O religioso abraça o outro mundo, sem qualquer razão inabalável para fazê-lo e esquece-se deste. É uma troca que caracteriza uma decadência, já que os efeitos dela resultam numa imobilidade triste por parte da sociedade. Em síntese, o raciocínio judaico-cristão condena o aqui e o agora, que de nada valem se outro mundo existe.

    Escrevi algo semelhante, não com a mesma genialidade, em:

    http://blogquestionando.blogspot.com/2010/04/morte-e-vida.html

    Compartilho da opinião exposta neste texto teu. Agradeço também os recentes comentários.
    Um abraço.

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  2. Julian: Com certeza há ecos de Sêneca e Nietzsche nesse texto. Estão na cabeceira da cama, embora nem sempre consiga compor um comportamento e um pensamento que sejam valentes em relação aos preceitos de intersecção razão/sentir que ambos denotam. Mas a projeção da existência já implica na ocorrência de um projetor e de um projeto, o que talvez jogue para o futuro a materialização de certas realidades. Afinal, como disse Montaigne, "pensar é aprender a morrer". Então algo a gente faz ao menos para dar valor à máxima de Nelson Rodrigues: "somente os chatos mudam o mundo".

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