quarta-feira, 11 de abril de 2012

Coisas Outras n° 1.


O NÃO É CÉU., até o momento, tratou-se de um espaço no qual publiquei apenas meus textos.

Mas hoje decidi inovar. Passarei a postar, esporadicamente, escritos de outras pessoas.

Surge então um novo quadro: “Coisas Outras”.

Inauguro o dito cujo com um poema (sem título) de autoria do meu amigo Ranieri Angst Grassel – abaixo, seu paladar.

“Que as palavras sejam ouvidas na forma de prece,
que a navalha que percorre meus sentidos te traga a paz que eu preciso,
mas não a paz que tenho,
não essa infinda guerra que amealha meus dedos
neste quente dia onde gélidos apenas se apresentam
os indolores sabores que distraem meus olhos.

Que Deus seja pai e que de todo o lamento se faça a misericórdia.

Que o acaso acabe de uma vez e que se tenha imaginação ao que se tem,
ao que se ama, ao que quer,
e que se esqueça da dor,
do dissabor e desse calor
que desespera meus pensamentos no dezembro infinito.

Que a distância seja o espaço de tempo entre fechar os olhos
e te imaginar aqui perto,
e que o seu abraço seja mais do que o arrepio
fugaz que esmerilha meu corpo.

Que toda segunda traga uma terça,
e que se possa acordar de manhã,
andar pela casa, ver-se pais, mães, irmãos
e saber que desse ocaso o acaso desse caso não toma parte.

Que o champanhe dos dias de festa seja o oxigênio dos dias naturais.

E que o sorriso achincalhe de vez a tristeza e corrobore meu pesar
neste contentamento incorreto de,
à sombra da árvore,
iludir e discernir essa nova forma de percepção.”

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Jam n° 18.

Será que é saudade? Será que é um sentir franco ou apenas de ocasião, daqueles que nos acometem em momentos de fraqueza? As respostas certamente são tão vagas quanto as perguntas - e nada poderá ultrapassar a barreira de simplesmente estar e gostar. Quem sabe seja esse o aprendizado: nada de expectativas, tudo de agora. Mas confesso que acordar com teus cabelos nas minhas mãos, foi uma das melhores sensações que tive nos últimos tempos. Deixarei estar, enfim. Não hesitarei diante de curiosidades, mas não abrirei mão de algo que se avizinha como plenamente passível de bons sentires. Quando um amor não acaba, sabe-se eterno mas amortecido por despedidas, é que o espaço do peito se abre para outro amor. Amor este que, apesar de diverso, traz consigo vozes de puro carinho e entendimento.  

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Jam n° 17.

Penso que deveria estar com alguém. Inclusive acho que se um pouco de vontade houvesse, até mesmo estaria. Mas o que dizer desse vício na solidão? O que dizer de um afastamento que aos poucos apaga cheiros e gostos antes tão presentes? É terrível essa sensação de esquecer aos poucos mas saber que uma desmemória plena jamais virá. Feito jornais amarelos empilhados no porão, algumas imagens e manchetes chamarão nossa atenção justo naqueles momentos pré-sono. A conclusão é uma só: é tudo tão triste que chega a ser engraçado. Daí tantas piadas. Daí tantas palavras. Daí tantos sonhos. Por isso só confio no humor negro. Por isso estou interessado em alguém que, em seu último velório, teve de segurar o riso diante da babaquice ritualística generalizada. Se esse riso foi uma espécie de auto-proteção, não sei e nem me interessa: apesar de viver de estruturas, cansei de esquemas. O que me vale agora é encontrar o esqueleto do vento. Mais nada. O fato em si é que na vida a gente sempre tenta tapar um buraco com outro buraco na esperança de que um dia ache o centro de tudo isso. Mas o que provavelmente encontraremos? Uma pá. Então a atividade recomeçará até que o corpo desprovido de órgãos de Artaud se torne terra. É assim que se busca a felicidade. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Jam n° 16 (ou "Comentários sobre uma milonga").

Acordo com um trecho de uma canção do Renato Russo na cabeça. Penso que deve ser bobagem, coisa de gripe, enfim. Mas outras teias surgem. "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão / Cada um de nós imerso em sua própria arrogância / Esperando por um pouco de atenção". Quieto, ainda sem saber o que dizer, os amores líquidos do Bauman me surgem claros, plenos de aproximações e afastamentos. Sem concluir coisa alguma, Erza Pound me assalta: "os artistas são as antenas da raça". "Mas que raça?", me pergunto. "Raça do coração?". Sorvo um gole de chá (mel, limão, camomila e canela), vejo a fumaça grudando véus na tela do computador e coço a cabeça de sono vivo. Lembro que tenho coisas para fazer nas próximas horas, que deveria estar no décimo quinto sonho e sei que nada disso virá. Pior: estou bem. Supostamente as tempestades acalmaram. Possivelmente o terreno do sentir se alinhou com minhas expectativas de futuro. Mas o que quero do amanhã, eu que nem sei quem sou agora? E o que quero do agora, eu que nunca soube quem fui ontem? Um uníssono "não sei!" percorre minha espinha: de célula em célula, esse grito parece úmido, grudento, cômodo feito um edredom macio. De repente, noto que temer o vazio é o pior sentido possível: há que se abraçar e acariciar o nada para que os dias tenham alguma luz. Dessa intersecção e nesse hibridismo tosco, começo a desenhar os passos da terça-feira sem quaisquer pretensões de sucesso. Todos sabem, afinal das contas, que desejo não é poder, mas palpitação em frente ao espelho, mergulho no torvelinho da libido. Quanto a mim, que não desejo nada além de quem sou, carregarei as horas de franqueza contínua: razão trespassada pela lança do sentir. Só então saberei que minha arrogância se fez madura, caiu do pé e possibilitou o nascer de uma nova planta, plena da vida que sempre quis. Aí é que, absurdamente generosos, os caracteres dessas frases farão alguma diferença distantes de "confessionismos" bestas. O motivo? Do sucinto das tramas de palavras, brota aos poucos uma idéia qual bloco de notas. Não mais me vale a birra pela birra e a discussão pela discussão. Não mais me valem sequer proposições ou utopias sem eira ou beira. O que me vale, a partir de agora, é a delicadeza da sensibilidade aliada a uma consciência calma de tudo o que passou e tudo o que ficou. Dessa ilha sem nacionalidade, desse lago feito de ondas, construirei uma nova cidade ao feitio dos meus Legos dos sete anos. Peça por peça, encaixe por encaixe, ruas desandarão em prédios e prédios darão lugar a florestas que existirão apenas para mim. Tudo isso porque são os erros, gramaticais como óculos de lente grossa, que constroem os maiores acertos que algum dia poderemos realizar. E é nessa dança que Russo, Bauman e Pound ouvirão a "Milonga Borgeana" do Jaime Vaz Brasil. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Jam n° 15.

Meu pai estava certo quando me dizia na adolescência: "Na vida, tudo é questão de fase, Eduardo. Acalme-se". Problema é que alguns sentires e algumas pessoas ultrapassam as fases e fincam morada rediviva momento a momento no seu peito. Mas será que é um problema ou apenas um atestado de que você sentiu e sente algo verdadeiro que, embora jamais se apague, sempre faz bem? O fato em si é que cada vez mais descubro que meu insight dos dezesseis anos está totalmente correto. Qual insight? O seguinte: a existência apenas detém um sentido quando ancorada no binômio amor e arte. Não é reducionismo: isso realmente resume tudo. Único “porém” de falar isso às cinco e meia da manhã, está para uma gripe que me afeta, uma tosse que me acorda e uma febre que me faz suar. Mas enquanto eu estiver aqui, não há de ser nada, já que cada arfar de pulmões traz a possibilidade de que um dia seja melhor que o outro. Março, enfim, não se tornou o "mês do ponto final", como eu pensava. Ao contrário, tornou-se o "mês do ponto e vírgula". Não se fez um mês de fim de página, mas um mês de pausa breve. Afinal, são dos desesperos prováveis que surgem os amores possíveis. De resto, o caminho se faz ao caminhar: ainda que seja jargão, somos sempre nós que posicionamos placa a placa o sentido dos nossos rumos. E ao buscar mais um pouco de sono e melhoras, concluo: sinto-me tranqüilo pelo que fiz, pois jamais gostei das lembranças de arrependimento. Todos sabem: mais vale se estrepar tentando do que investir na calmaria de um domingo de futebol na TV. Quando o passado não machuca, o presente é um afago e o futuro certamente será ótimo, pouco se tem a lamentar. Resta agora apenas desvendar o sentido de um sorriso e de certas pálpebras de ontem, porque apesar de nem todas as palavras serem verídicas, todas as letras são sentires. 


sábado, 25 de fevereiro de 2012

Jam nº 14 (ou “Petições para o Universo).


Uma pessoa importante (para o ser humano que aqui fala) disse que Petições para o Universo existem e funcionam. De início, não entendi ou cri, vez que o ceticismo é a linha mestra das minhas concepções de vida e de mundo. Mas resolvi tentar.

Imaginei vários familiares, amigos e amigas de ontem e de hoje, namoradas que nunca mais vi, assinando a petição. Delineei os fatos, os fundamentos e os pedidos. Busquei um arrazoado nada jurídico, mas pleno do pulsar da existência e de um querer profundo.

Protocolei no Cartório do Cosmo via imaginação consciente. A petição foi recebida e devidamente encaminhada ao juízo competente. Para não deixar margens de erro, repeti o processo três vezes. Poderia ocorrer algum equívoco cartorário e o aceite inexistir, afinal.

O resultado? Desejos começaram a se tornar metas e metas começaram a se tornar rumos. A engrenagem das coisas, visíveis e invisíveis, movimentou-se. Não sei de despachos ou notas de expediente provenientes dessa lide. Nem sei se se trata de um litígio, visto não haver parte contrária.

O que sei e vejo de forma clara, é que quando começamos a dançar no ringue desse boxe dos dias, movidos por ímpetos de mudança, horizontes novos se abrem, dependendo nossos passos unicamente da persistência na direção de outros paradigmas. Jabes ou cruzados de esquerda podem até buscar nosso rosto. Se acertarem, porém, o sangue terá um gosto doce na boca.

Talvez esses movimentos não sejam certos. Talvez a "vontade de mudança" seja pura "ânsia de incerteza". Mas o fato, real e incontestável, é que somos capazes de vencer qualquer campeonato pelos estádios da vida, sejam eles em algum lugar como a futura Arena Gremista ou em um simples campo de várzea. Não interessa o cenário: interessa o protagonista.  

Podemos e devemos, movidos por coisas, pessoas ou idéias que sentimos férteis e fortes no âmago do coração e na parte detrás da cabeça, correr atrás da felicidade. Precisamos disso. Quando os ares de um lugar ou as respirações de algumas conversas parecem não mais consentir com nossos sentires, o final da insônia pede outros quartos. Não adianta persistir no que é cômodo – seria sintoma de fraqueza e sinal de tristes horas. O que faz sentido é esquecer que existem chaves e simplesmente abrir todas as portas.

Do futuro, sei apenas a incerteza. Do amanhã, só me cabe o amanhecer. Do hoje, tenho a boca cheirando à café. Do agora, os dedos dançando pelas trilhas das teclas. Mas do tempo, esse sim, sinto o caráter implacável, as garras da destruição de tudo, do esmorecer da pele, voando em meus cabelos e ressentindo mortal, sempre mortal, a coragem e a liberdade que me escorrem veia por veia nesse exato instante.

A saúde, o amor, o trabalho, o bem-estar de uma casa morna, a palidez de um copo d’água gelada: tudo flui em raios da nossa presença para transformar em chuva o que era estiagem. Apontados para o porvir, esses jatos de querer quem sabe possam ser comparados à supernovas, estrelas próximas da morte que espalham no espaço a matéria da qual somos compostos quando enfim explodem. Não há destruição: o que existe é superação de muros que em algum momento, completamente bobos, julgamos intransponíveis.

Mas qual foi o juízo que recebeu minha petição? Não será a própria petição um atestado de falta de juízo? E se o Cartório do Cosmo esqueceu o encaminhamento? As próximas etapas dirão, já que sei da inexistência de um processo esquematizado e fechado quando se trata do Universo. Pode até haver recurso, tribunal superior ou corte interestelar, mas desde que os motivos de pedir sejam condignos com os pedidos, certamente o sucesso estará estampado na próxima página.

Resta então prosseguir. Resta agradecer à pessoa importante (aquela do início do texto) e falar para ela o quanto ela é essencial para mim, despertando-me para o novo desde o primeiro momento em que toquei seu rosto e sua boca. Mais que isso, falar o quanto “justiça” e “injustiça” são conceitos tolos próximos da dignidade e dos sorrisos do porvir presentes nas Petições para o Universo.   

Já fez a sua? Se não, só mais um recado: nessas instâncias cósmicas, provavelmente somos advogados, promotores, autores, réus e juízes ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Não há indício de poder quando todo poder brota das nossas mãos, pensamentos e compassos do coração.

Afinal, todos sabem ou deveriam saber: somos aqueles que desejamos ser – e as Petições para o Universo, provas da força do nosso querer. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Jam nº 13.


Toda nuvem é uma pálpebra sonolenta.
Quando fecha, termina a noite.
Quando abre, começa o dia.
“Mas não deveria ser o contrário?”, alguém pergunta.
“De modo algum: claridade é sala de cirurgia”, respondo, "o sol é a única lógica".